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Sexta-feira, Julho 04, 2008

Cor do amor sobre azul


Olhou para ele e seu coração se encheu de ternura. Lembrou-se do quanto aquele amor entrou em si pela porta dos fundos...

Nem quando o beijou pela primeira vez, tinha por ele qualquer coisa para além de uma curiosidade momentaneamente desperta por aquela boca que, subitamente, se insinuara junto à sua acordando nela o mesmo interesse que, às vezes, tinha em descobrir o sabor e a textura de uma fruta que lhe “sorria” em meio a outras.

Quando seus lábios encontraram os dele, sentiu imenso prazer naquela boca molinha cuja língua desafiava a sua de um jeito tão aveludado e suave, que projetou em sua mente e trouxe à sua boca a lembrança de um pêssego que, de tão caudaloso, escorre sumo ao ser mordido.

Por vários dias seguidos se encontraram mesmo que jurassem que não o fariam. Sempre havia um CD que queriam emprestar para que um novo grupo ou intérprete se tornasse conhecido; ou um livro que juravam que o outro ia adorar ler; ou ainda um filme que queriam assistir na certeza de uma boa companhia. Beijou-se muito e longamente, embora jurassem a si mesmos, assim que se viam a sós, que no dia seguinte, caso se encontrassem novamente, não o fariam. No entanto, quando se davam conta, já estavam entregues às carícias que suas bocas e mãos buscavam e promoviam em uníssono.

Bateram pé que não namorariam! Explicaram entre si os motivos; aceitaram e concordaram com as razões alheias e próprias. Porém em duas semanas assumiram que o faziam desde o primeiro dia. O que acontecera entre eles que fora tão forte a ponto de mudar as determinações internas que cada um havia firmado, a seu tempo, de que não se envolveriam tão cedo com outras pessoas? Fácil saber: o prazer que sentiam em estarem um na companhia do outro era imenso. Para muito além da química física, achavam bom estarem juntos fazendo o que fosse; e isso era algo tão raro de acontecer que intimamente consideraram burrice desperdiçar o que a vida achara por bem lhes oferecer.

Aliás, a química era o que por último acontecera entre eles; primeiro vieram a conversa fácil, as afinidades de valores, a oportunidade de serem eles mesmos, sem máscaras e sem medo de se decepcionarem. E em pouco tempo perceberam que quando a mente buscava por recordações de momentos felizes, os primeiros que lhes assomavam eram justos aqueles nos quais estavam juntos.

Tempos depois, conversando sobre o começo de namoro deles, ele revelara que se decidira por beijá-la por conta de um sonho. Neste, eles estavam entrando no cinema juntos quando o bilheteiro disse que os assentos ali eram numerados e que os deles eram em lugares opostos, encaminhando cada um para um lado. Ele se sentou no escuro e logo o filme começou. Achou muito ruim não poder comentar a trama com ela e buscando-a com os olhos dentro da sala de exibição, a viu sentada numa alta banqueta que tinha no balcão de um bar que lá havia, rodeada de rapazes que disputavam a sua atenção. Sentiu uma espécie de angústia e quis tirá-la logo dali, mesmo tendo o filme apenas começado. Para tanto decidiu chamar sua atenção ficando em pé e acenando. Inútil, ela não o via. Não se deu por rogado e começou a dizer seu nome em crescente desespero e mesmo assim ela agia como se dele não tivesse registro. Quando se decidiu por chegar até ela pulando por sobre a proteção que separava os dois espaços, o cinema se iluminou e ele a viu sair sorrindo de braços dados com um outro rapaz. Correu atrás deles e quando finalmente os alcançou viu, apavorado, que ela olhava apaixonadamente para o outro. Parou na frente deste disposto a disputar-lhe o afeto, espantando-o, no tapa se fosse preciso, e percebeu, estarrecido, que o outro era ele, sem ser.

Acordou banhado no mais gélido suor e não conseguiu conciliar mais o sono. Finalmente entendeu que maior que o seu medo de amá-la era o medo de perdê-la. Como pudera ser tão estúpido a ponto de achar que ela sempre estaria ali, disponível? É lógico que, mais dia menos dia, um outro iria adentrar a sua vida e mesmo que a amizade entre eles não terminasse, ela teria de dividir o seu tempo e a sua atenção com um amor que a tomaria infinitamente mais do que a amizade que tinham... E o tempo; ah! O tempo! Ele a levaria aos poucos para fora da sua vida. Inexorável... Não! Ele não suportava pensar sua vida sem a presença dela! Não sabia o que era aquilo, mas sabia que ela lhe era vital e mesmo sabendo que ela não lhe tinha mais do que amizade, resolveu tentar...

- Deu no que deu... Murmurou ela baixinho, enquanto lhe alisava os cabelos. São trinta anos de felicidade, e contra todas as expectativas, é você quem está prestes a partir e me deixar aqui...

Quantas vezes foram ambos silenciosamente criticados por ela ser quase vinte anos mais velha que ele? Incontáveis foram as vezes que percebera olhares de mudo rancor e despeito lançado em sua direção, por mocinhas que ficavam primeiro surpresas e depois indignadas ao perceberem que ele não era seu neto e muito menos seu filho, e sim seu homem; aquele que a amava. Inúmeras foram também as ocasiões onde senhoras perguntavam apenas para alfinetá-los: “é sua mãe”? E ele então se divertia as chocando ao responder a pergunta tascando-lhe um enorme beijo para logo em seguida perguntar: “te parece”? E ao lembrar disso ela sorriu...

É, se no começo a diferença de idade não fora evidente, pois ela aparentava ser bem mais nova do que verdadeiramente era, depois que fizera sessenta anos esta se tornara bastante aparente. E mesmo assim, quando ela o questionava, com sinceridade, se ele não preferia ir em busca de alguém mais nova, ele lhe respondia: “O corpo dela envelhecerá um dia, do mesmo jeito que o teu. Provavelmente até mais depressa. E prefiro as tuas poucas rugas conhecidas a qualquer lifting desconhecido. Além disso, que garantia tenho que dentro deste jovem corpo irá existir um espírito que eu possa amar e que me faça tão feliz quanto o teu me faz? Não é o teu corpo que amo e muito menos a forma que ele tem, é você. Ele me deu e dá felicidade, não nego, mas apenas porque é habitado por você. Não o fosse e não estaríamos aqui”.

Sorrindo passou mais uma vez a mão pela pele daquele rosto tão amado e agora inerte, incapaz de lhe dar um sorriso sequer, e se bem disse por não ter sido covarde em assumir o amor que ele lhe despertara a despeito de todas as oposições.

Antes dele, do amor apenas conhecera a dor. Depois dele conhecera a felicidade, não aquela de contos de fadas, feita de ilusões, mas a real, feita de cotidiano e de superações. Tiveram problemas, tiveram diferenças, tiveram incertezas e dificuldades como qualquer casal e relação, porém o amor e o bem estar em estarem juntos, sempre foram maiores e sempre fizeram valer a pena. Amou e foi amada como poucos tiveram o privilégio neste mundo...

Ele abriu os olhos e a fitou. Naquele olhar ela viu a imensidão de um amor que se despedia. Uma lágrima caiu dos seus olhos indo pingar sobre os lábios dele que se moviam num sorriso que logo congelaria e sobre o qual ela pousou os seus dizendo:

- Até breve meu amor e obrigado por haver compartilhado comigo tua imensa coragem e sabedoria.

Ele estava morto.


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 11:17 AM - |


Quarta-feira, Julho 02, 2008

Uma vez acompanhei uma história de amor interessante que os comentários sobre o Frankstein do amor me fizeram lembrar.

A moça era absoluta e perdidamente apaixonada por um amigo meu que não valia nada, embora a amasse de verdade. Depois de muitas idas e vindas e muita confusão, eles terminaram em definitivo, pois ela percebeu que ele e a relação não a nutriam e nunca nutririam. Nesse término a minha relação com ela acabou abalada, pois não sei como, ela achou que eu tivesse responsabilidade sobre a última briga deles... Enfim, passados bem uns dois anos recebo uma ligação dela e um pedido de desculpas por ter confundido as bolas na hora do rompimento. Que gostava muito de mim e tanto que fazia questão absoluta de que eu fosse ao seu casamento. Pois é, enquanto chorava pelo ex, um colega de trabalho a consolava e com isso havia conquiistado o seu coração. Na igreja eu quase caio dura quando vejo o noivo entrar pela porta inaugurando o cortejo dos padrinhos. Rapaz!!! Ele era cara, o tamanho, o jeito, o sorriso e os olhos verdes e safados do meu amigo! Sério. Irmão gêmeo univitelíneo separados ao nascer! Mas segundo ela, o caráter era bem diferente. E a vontade que eu tinha de rir?? Nossa! Não fui na recepção, pois estava morrendo em pé numa super gripe e infelizmente perdi a chance de conversar com ele ou de mantermos contato...

Hoje que sei da lei da atração e dos seus efeitos entendo porque ele ser tão parecido e ter-se casado com ela...


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 1:01 PM - |


Terça-feira, Julho 01, 2008

Se tem uma coisa na qual eu não acredito no amor é na conquista. Talvez porque eu tenha sofrido de rejeição paterna e tenha passado a minha infância e começo de adolescência tentando ser alguém que meu pai pudesse amar. Não adiantou. Eu quis me transformar em outra pessoa e, no entanto, só consegui ser cada vez mais eu mesma.

Não entendo que se façam coisas no sentido de convencer ou mostrar ao outro que o que sou é passível de ser amado. Se sou, sou espontaneamente e o outro vê e em vendo, pode me amar ou não. É, ele também não tem muito controle sobre o que sente né? A gente ama ou desama sem motivo, simplesmente acontece. Não tem truque, não tem jogo de cena, não tem vontade ou razão que comande o nosso coração.

Mais ou menos. Assim: acho que a única coisa que podemos fazer com o nosso sentir é conformá-lo. Explico-me: conformar o sentimento é viver conformada em ter uma relação meia-boca com alguém de quem se gosta, mas não se ama, porque tem outras coisas consideradas mais importantes envolvidas; ou viver conformada que não se vai viver o grande amor porque ele não nos ama. O conformismo adormece e amortece o sentimento, e se ele é inevitável, prefiro só viver o segundo tipo. Que Deus me proteja de viver uma relação meia-boca seja lá pelo motivo que for.

Na minha vida afetiva não me lembro de ter sido conquistada. As coisas aconteceram ou não, mas sempre naturalmente. Primeiro surgia a paixão: às vezes a primeira vista, noutras nascida do convívio numa amizade; o namoro e a convivência mais íntima traziam o amor, ou não. E quando não, nada havia que o outro fosse, atuasse ou praticasse que me fizesse voltar atrás na decisão de romper. Da mesma forma que não sei viver sem receber amor, não sei viver sem dar o que considero justo o outro receber, pois todos têm o direito de serem amados e não apenas gostados. Arrogância suprema é a daquele que acredita que dar carinho basta. Lembro de um amigo que um dia me disse que admirava a minha capacidade e firmeza em terminar os relacionamentos e não cair nas armadilhas da carência, tanto minha quanto alheia. Para mim sempre foi muito claro que embora doa, quanto mais cedo eu liberar o outro, mais cedo ambos encontraremos a felicidade.

Talvez pela relação com o meu pai eu tenha essa necessidade primordial de me sentir amada para estar com alguém. Não sei amar sozinha, não consigo crer em que amar por dois funcione. Eu amo e quero amor de volta. Quero me sentir amada também. Posso ser maluca de paixão por alguém, mas se não sentir a reciprocidade, minha paixão não é um sentimento que vá se transformar em amor romântico. E se amo já e descubro que não sou amada da mesma forma, meu amor se fraterniza. O que não é esquecimento, é vero. É apenas encontrar a maneira sob a qual este sentimento possa sobreviver sem causar danos a ninguém, principalmente a mim mesma.

Claro que já adoeci de paixão, porém não gostei da pessoa na qual me transformei – que na verdade sou - quando obsedada pelo meu próprio sentir. Só vivi tormentos nessa situação e nem posso dizer que estes foram provocados pelo outro. Por isso, quando me dou conta que a qualidade do que sinto não me faz bem, empenho-me em me conformar com não viver aquilo. Não é fácil, pois tem dias em que dói muito. Você tem de viver num estado de atenção constante para desviar-se das armadilhas que existem pelo caminho e que sabe que se tropeçar nelas, te lançarão de volta ao sentimento que você tenta reformar.

Esquecer um amor é mais ou menos como ser um ex-viciado: você tem de evitar o "primeiro gole" pro resto da sua vida. Isso implica em evitar qualquer situação na qual possa ter seus sentimentos despertos e se por ventura isso não for possível, evitar entregar-se a fantasia de que aquilo seja mais do que demonstração de carinho.

E tem vezes nas quais nem isso é possível... Às vezes você ama e é amada, porém a pessoa está presa numa outra história que é igualmente importante, ou tem mais prioridade do que viver esse amor naquele momento... E a única opção que você tem é a de se conformar mais uma vez, pois caso contrário terá de aceitar não as migalhas do afeto alheio – a final ele corresponde ao seu amor – mas com as sobras do tempo que ele tem para dedicar-se à relação que tem com você. E viver a espera de que chegue o dia em que possam ficar juntos. Nesse caso é uma questão de auto-estima e conhecimento próprio saber se essa relação te nutre ou não.

A mim não nutre, embora dê alento.


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 7:59 PM - |


Domingo, Junho 29, 2008

Estava aqui pensando e acabei me dando conta que cada homem que passou pela minha vida colaborou pra eu saber o que quero naquele que vai ficar nela como meu companheiro... De cada um tiro um ou mais atributos que gostaria de ver reunidos em um homem só, e isso pode não torná-lo perfeito aos olhos do mundo, mas o torna aos meus olhos.


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 9:51 PM - |




Cor da elaboração sobre o azul


Estava completamente mergulhada na leitura quando sentiu a brisa bater suavemente em seu rosto. Automaticamente deixou o livro tombar sobre seu colo, embora ainda preso pela sua mão, e levantou a face em direção ao céu com os olhos fechados. Inspirou profundamente, repetidas vezes, até achar que todas as células do seu corpo já estavam banhadas, pelo delicado e inebriante perfume que se desprendia das delicadas flores amarelo-ouro a adornarem a árvore sob a qual estava sentada, porém cujo nome desconhecia.
Abriu os olhos olhando para as árvores do outro lado do lago e foi neste momento que viu uma borboleta, de asas pretas e amarelas, vir voando em sua direção. Surpresa percebeu que a mesma não mudaria sua rota, terminando por pousar suavemente sobre seu ombro esquerdo e começando, imediatamente, a passear pelas suas costas e cabelos. Ia chegar ao seu rosto, mas antes que isso acontecesse, ela resolveu pegá-la com a mão e depositá-la na planta mais próxima.

Imaginando se a borboleta pousar nela era alguma forma de sinal, um bom agouro em relação ao futuro próximo. Esticou as pernas e escorregou malemolentemente no banco até recostar a cabeça no seu espaldar acomodando-se confortavelmente. Fechou mais uma vez os olhos e colocando o livro de lado, recomeçou mais uma série de respirações profundas, um dos métodos eficaz em colocá-la em contato consigo mesma.

Há alguns meses vivenciará uma desilusão profunda quando, após deixá-la por outra, o homem que amava, fomentado pela nova companheira, acusou-a de coisas que não fizera. Aquilo doeu infinitamente mais do que ser deixada por que, se entendia ele não se sentir mais atraído por ela enquanto mulher, não compreendia como, após cinco anos de convivência, podia acusá-la de coisas que jamais faria, nem com ele e nem com ninguém, por não ser da sua índole. Como pôde simplesmente passar a desconhecê-la só porque a mente doentia da namorada resolveu enxergar razões escusas em atitudes inocentes dela para com ele numa reunião social?

Até entendia que na cabeça medíocre da moça, assim como na de noventa e nove por cento da população feminina mundial, esta visse como ameaçadora a convivência pacífica de ambos. Porém, ele agir para com ela como se isso fosse verdade era um absurdo! Quando abriu seu e-mail e leu a mensagem na qual ele desfiava um rosário de improbidades e terminava por dizer que esperava não vê-la nunca mais, acrescentando que o deixasse em paz - como se ela vivesse à cata dele - explodiu numa onda de ódio tão intenso que acabou falando coisas com as quais jamais sonhara em sua vida. Xingou, gritou, ameaçou, e chantageou, pois em hipótese alguma admitiria ser descartada e destratada daquele jeito. Isso era demais até para ela, a rainha da compreensão e do perdão quando se tratava dele.

Quando sua ira arrefeceu e a despeito dos resultados - pois não colocou em prática nada do que disse que faria - ficou chocada com a grandeza do monstro que a habitava e com o quão baixo conseguira chegar para “corrigir um erro”. Foi então que se fez pela primeira vez à mesma e clássica pergunta que há séculos corria mundo: “um erro justifica outro”? Para si não. Nada justificava que tivesse se utilizado de meios tão sórdidos para atingir um objetivo, mesmo que o achasse justo.

E foi ai que a dor da decepção para com o outro se uniu à dor da decepção para consigo mesma e se tornou tão intensa e insuportável, que provocou como que uma rachadura na sua estrutura psíquica por onde sua alma escoou, indo se esconder em algum lugar dentro de si mesma, aonde, apesar de tudo ver, nada podia atingi-la. Ela deixou de sentir.

Se isso assustava algumas pessoas, ou todas, não a assustava por dois motivos: um, porque não era a primeira vez que aquilo lhe acontecia - numa outra ocasião quando se sentiu incapaz de lidar com a realidade circundante, apesar de não ser uma situação afetiva, também alienou-se, voltando a sentir quando o que era novo tornou-se costume - e dois porque se tinha algo que ela não queria naquele momento, de jeito algum, era sentir. Não queria sentir nem a dor e nem aquela espécie de amor, que sabia, ainda havia em si por aquele homem que não a merecia. E também sabia que apesar de todo o seu não querer, e apesar da sua incompreensão para com aquele sentimento, seria este quem a traria de volta ao mundo dos sensíveis uma vez que, ainda hoje, era impossível encontrar com o ex sem que algo dentro dela estremecesse... Mesmo que, de verdade, não soubesse mais do que estremecia... Embora ainda chamasse aquilo de amor, achava que no fundo era puro costume.

E fora isso que acontecera: havia retornado pouco a pouco, já que o conflito entre o que sentia, o que queria e o que podia só encontraria resolução se tomasse posse da totalidade do seu ser. As questões que se propunha só podiam ser respondidas mediante o contato verdadeiro com os seus conteúdos. Quais questões? Várias, mas a mais emergente delas no momento era: “Como podia ainda sentir-se atraída por alguém que sabidamente lhe fazia mal”?

Sim, por que se tinha algo que hoje ela conseguia ver com clareza era que o homem charmoso, inteligente, culto, gostoso, bonito e bem humorado por quem um dia se apaixonara, era também capaz de atitudes terríveis que machucavam profundamente, uma vez que nunca levava em consideração a existência e nem quais conseqüências teriam suas ações na vida de outrem, já que, por mais de uma vez, a atropelara, metafórica e meteoricamente, apenas para satisfazer necessidades suas ou da pessoa com quem estivesse no momento. É, ao longo desses cinco anos “juntos”, várias foram às vezes nas quais se afastaram e tiveram outros parceiros. E embora ela sempre tivesse conseguido mantê-lo à margem dos seus namoros o mesmo não acontecia com ele.

Por mais de uma vez se viu involuntariamente envolvida com as suas relações chegando ao cúmulo, certa ocasião, de ter sido perseguida por uma namorada ciumenta, com a qual convivia ocasionalmente, desconhecendo, no entanto, que eles estivessem juntos. Descobriu por mero acaso e foi só então que percebeu que por muito tempo, ele se mantivera relacionando com ambas, embora entre eles não sustentassem mais o título de namorados. Percebeu também que era a outra quem mantinha a primazia no coração dele e que era por ela que ele fazia qualquer coisa para evitar o rompimento; até pisar nela.

Nessa ocasião chegou a ficar meses afastada dele; mas sentia sempre uma falta tão absurda da convivência que acabou procurando-o como nas outras vezes. E se a princípio a intenção sempre fosse permanecer somente como amiga, isso invariavelmente desvanecia e acabavam na cama. Ele não a amava, mas tinha-lhe tesão. Ela também. E era assim que terminavam novamente por se envolver, mesmo sabendo que dali a um pouco, e a despeito das suas pretensas boas intenções, ele partiria em um outro relacionamento. Ela falava-lhe sobre isso; ele insistia em dizer que valia a pena tentarem... E não houve uma só vez que vê-lo partir não tivesse doído e muito. Não houve também uma só vez em que ele não partisse. Saber não impede a dor.

No entanto não era ingênua a ponto de culpá-lo de ser o vilão da sua existência, embora achasse que algumas responsabilidades lhe cabiam sim. Porém isso era algo que ele tinha de dizer-se e não ela. Tinha plena consciência de que todos os abusos dele foram permitidos por ela que acreditou que perdoando e desculpando sempre, ao invés de quebrar o pau e impor limites, o faria ver o quanto ela era legal e digna de ser amada.

Era a velha história da sua vida com os homens se repetindo. Primeiro foi com o pai, depois com o irmão e agora com ele. Era como se na sua relação com o masculino vivenciasse uma só premissa: “deve existir algum jeito, alguém em quem eu possa me transformar para que possam me amar”. E com isso foi deixando de ser ela mesma, foi colocando-se de lado como se fosse algo ruim que não valesse a pena.

Foi assim que entorpeceu a sua exuberância, a sua autenticidade, a sua criatividade e até a sua inteligência. Tentou ser, com todas as forças do seu ser, uma mulher que não intimidasse os homens. Alguém que eles achassem ter necessidade para viver. Nunca conseguiu. Ficou sempre à margem, nem cá e nem lá. Apenas perdida de si mesma por que ninguém consegue esconder um vulcão em erupção constante. Ele até deixa de entrar em erupção, mas a fumaça continua lá, constantemente avisando que está ativo.

Custou, doeu, sofreu, mas finalmente entendeu que só poderia ser amada sendo autêntica, sendo do jeito que realmente é. Que só pode ser amado quem existe verdadeiramente e que, a despeito de tudo o que dizem por ai, não existe garantia alguma de que, no mundo, alguém venha a amá-la mesmo que em decorrência de laços sanguíneos. Amor só nasce de afinidades.

Estava perdida nesses pensamentos quando sentiu algo muito suave tocar-lhe a ponta do nariz. Abrindo os olhos viu que a borboleta havia voltado a pousar nela. Riu alto e a tirou dali só que desta vez, ao invés de colocá-la em alguma planta, preferiu jogá-la para o alto e vê-la partir.


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 9:01 PM - |


Sábado, Junho 28, 2008

Então, decidi postar aqui alguns dos contos que escrevi e que mais gosto. Todos fazem parte de uma coletânea que denominei "Sobre o Azul".

Espero que quem já leu goste de reler e entretenha-se, e quem ainda não os leu, descubra neles prazeres.




Cor da morte sobre azul



O doutor, caneta em punho, olhou o prontuário e perguntou:

- O que você está sentindo?

- Nada. Respondeu ela olhando-o no rosto.

Ele levanta a cabeça e com expressão de quem não entendeu muito bem e volta a repetir:

- O que você está sentindo?

- Nada. Ela repete.

- Como assim nada? Ele deixa transparecer em sua expressão que, vendo-a, parece óbvio que algo vai mal: a pele branca, os lábios sem cor, o olhar vidrado e arregalado, a voz baixa, quase um sussurro, a respiração difícil.

- Eu não sinto nada doutor, tornou ela. Nem dor, nem tristeza, nem alegria, nem amor, nem raiva, nem ódio, nem ternura, nem carinho. Não sinto absolutamente nada. No meu peito só tem um vazio enorme. Um buraco negro que quando olho para ele me dá vertigem. Ai minhas vistas escurecem, fico tonta e sinto que vou desmaiar. Porque luto; luto para que não me sugue para dentro dele, para eu não me perder nesse vazio. Mas ele está aqui e está me puxando. E eu estou muito, muito cansada de lutar contra ele a minha vida toda...

O médico pousou a caneta no papel cruzando as mãos sobre o mesmo:

- Alguém te decepcionou?

- Não. Fui eu mesma quem fiz isso. Sou um monstro. Você não vê, por que tenho essa cara boazinha, essa voz mansa; mas aqui dentro existe um monstro capaz de pensar coisas terríveis quando se sente acuado. Eu achei que fosse boa, mas não sou. Sou um ser desprezível. Ataque-me injustamente e veja eu me transformar no pior ser que você já viu.

- Todos são assim.

- Será? Não sei... Para mim é tão difícil lidar com isso do que os outros são... Mal consigo lidar comigo mesma... Eu achava que o que sentia era amor; apesar de tudo; era amor. Hoje não sei mais. Parece doença. Mas não sinto mais para saber o que é, sabe? Simplesmente deixei de sentir. Sou esquizóide. Quando acuada “subo” para o meu núcleo e fico vendo o mundo de longe. Nada me atinge. Absolutamente nada. Chego a ter a sensação nítida de que quando ando flutuo. É justamente assim que sei que estou lá me defendendo da vida. Já passei meses entrincheirada na esquizoidia quando me sentia perdida, com medo do que vinha pela frente, com medo de morrer. Mas agora está diferente. Não flutuo e sinto que perdi mesmo a capacidade de sentir. O núcleo virou um buraco negro que quer me sugar e eu estou tão cansada de lutar... Tenho medo de enlouquecer, mas, às vezes, penso que seria tão mais fácil. Tão mais fácil... Também não consigo chorar sabe? Logo eu que sou uma chorona de primeira. Meus olhos até se enchem de lágrimas, mas o choro mesmo, aquele forte que seria redentor, não vem. Não sai.

- Confesso que estava tencionando te encaminhar para a psiquiatria, mas você está tão lúcida e articulada, tão senhora de si que acho que eles não podem fazer nada por você lá que eu também não possa fazer aqui. Você passou por um tremendo estresse emocional, isso é evidente, e está precisando de repouso e de calmante. Vou fazer um soro, você vai ficar deitada umas três horas e neste soro vou botar um calmante. Também vou receitar para que o tome em casa. Poucos dias, só para dar uma relaxada e conseguir ficar mais imune a tudo e a todos e daí voltar.

- Eu não quero voltar. Quero ir embora e para sempre. Eu posso um dia vir a fazer o que penso, posso vir a, de verdade, prejudicar e machucar alguém que achava que amava...

- Me parece que você foi provocada e como você mesma disse: injustamente. Apenas reagiu a isso.

- Mas quem não sofre injustiças nessa vida? Foi a primeira vez que alguém me fez isso? Não. Será a última? Também não. São versões de um mesmo filme; um filme que já vi várias vezes nos últimos anos. Agora, o quê seria do mundo se todos se reconhecessem monstros perante as injustiças sofridas? Se déssemos vazão ao que pensamos? Teriamos muitos mais crimes... E o amor não deveria ser belo e trazer felicidade? Para que seguir lutando quando o que existe reservado para si é o desamor ou quando amar vira uma batalha insana por respeito e consideração? Não. Quero isso mais não...

- Vamos, vou te colocar no soro. Lá você descansa e logo passo para te ver novamente. Hoje, graças a Deus, isso está calmo!

Colocaram-na no soro. A sala é minúscula e fria, muito fria. No entanto ela já não e capaz de distinguir se o frio vem de fora ou de dentro de si mesma. Algo rompeu no seu peito. Existe o vazio, existe o buraco, existe o nada. Ela tentou evitar, tentou desesperadamente colar os pedacinhos, feriu-se e feriu alguém com os estilhaços.

Fica ali deitada olhando as gotas do soro que caem uma a uma. Não sentiu nem picarem seu braço. Ela que sempre teve pavor de agulhas. Está ali, olhando sem ver nada de concreto, vendo apenas “um filme” se desenrolar à sua frente. “Escuta” a frase tão famosa da mãe:

- “Se você fizer algo que me desagrade, fique sabendo que não te amarei mais. Simplesmente te risco da minha vida”.

Cresceu ouvindo isso e acreditando piamente que fosse verdade. Cresceu com medo dessa capacidade que os outros têm de deixarem de amar alguém simplesmente por vontade. Como se as pessoas fossem objetos dos quais a gente se cansa e bota fora quando nos convêm, tendo por motivo apenas a percepção de que elas não são o que queremos que elas fossem.

Ela tentou fazer isso várias vezes durante sua existência, porém não conseguiu nunca. Sim, deixara de amar algumas pessoas e de falar com outras. Mas jamais conseguiu esquecer alguém que fez parte da sua vida. De sentir carinho, de lembrar e rir-se sozinha dos bons momentos. Os maus ela se permitia, com o tempo, esquecer. Só se afastava de alguém quando a pessoa demonstrava capacidade real em lhe fazer mal, e mesmo assim o fazia em silêncio, sem alarde. Parecia-lhe tão estranho isso de riscar de uma existência alguém como se essa pessoa nunca tivesse feito parte da sua vida. Viver sem que nem uma pedra, ou um cheiro, ou um sabor, ou a pétala de uma mísera flor fosse capaz de suscitar reminiscências. Não existência. Nada. Ela também tem esse discurso. Filho de peixe, peixinho é; mas na verdade nunca conseguiu. Passada a raiva sempre ficava com as coisas boas da relação e achava que valia a pena tentar novamente.

Ouviu o irmão, de novo dizer que não a amou nunca. Ouviu o pai, mais distante ainda, dizer a mesma coisa. Era pequena ainda e as pessoas próximas já não gostavam dela. Que sina é essa que traz um bebê fazendo-o capaz de suscitar repulsa nas pessoas que, por via de regra, deveriam amá-lo?

Passou a vida tentando ser alguém que pudessem amar. Amarem independente de qualquer coisa que fosse, ou fizesse. Amaren com defeitos e qualidades. Amarem sem que ela precisasse brigar por isso. Ser amada simplesmente porque existe.

Hoje até sabe que a mãe não tem o poder de deixar de amá-la, e nem a ninguém, mas o mal, o grande e profundo mal, está feito. Ela tentou por anos estabelecer com alguém uma ligação afetiva significativa, mas sem sucesso. Viu as pessoas irem embora da sua vida uma a uma. Todo mundo a festeja. Todo mundo a celebra, mas ninguém fica com ela. Sua vida se resume àquilo mesmo: um espaço minúsculo destituído de qualquer adorno, onde se dopa a fim de não sentir que o mundo não a comporta.

Porém hoje ela sabe. Hoje nada mais é capaz de fazê-la acreditar que um dia haverá para si uma existência de amor. O vazio está ali no seu peito. Algo arrebentou dentro dela sem chance de ser reconstituído. A esperança morreu. Hoje viu sua face nua frente ao espelho e viu também a face das pessoas a sua volta. Hoje sabe o porquê de não a amarem e entende. Aceita.

O médico entra na sala, silencioso, pára ao seu lado, coloca a mão em seu braço e pergunta:

- Grandes olhos tristes, você está se sentindo melhor?

Ela assente com a cabeça enquanto as lágrimas descem pelo seu rosto. Aquela mão... Aquele toque... Ela chora. Finalmente chora. Porém é um choro de despedida da pessoa que um dia foi e que sabe que ficará ali naquele cubículo para sempre quando ela for embora.

O médico puxa a cadeira e se senta. Afaga-lhe os cabelos tal como um pai faz com uma filha. Ela olha para ele e diz:

- Eu morri né? Você sabe; eu morri. Daqui a um pouco vou levantar dessa maca, vou pegar minhas coisas, vou passar na farmácia do hospital para pegar meu remédio e vou para casa. No entanto já não serei mais eu, serei outra. Já não fui eu quem chegou aqui, e também não serei eu quem daqui sairá. Eu morri e vim aqui me enterrar por que não estava conseguindo fazê-lo sozinha. Por isso não tive a sensação de flutuar; não entrei no núcleo por defesa: me transformei nele, no não sentir. O vazio é minha cova e me puxa porque tenho de ir para o meu repouso eterno. Eu seguirei vivendo e as pessoas vão até achar que sou eu, mas não sou. Será o fantasma do que um dia fui. Vou rir, vou chorar, vou viver enfim, mas jamais vou me entregar novamente.

- Será que morreu mesmo? Você pode ser Fênix e renascer das próprias cinzas.

- Eu perdi a fé. Não acredito em mim e nem nas pessoas que vêm maldade onde não existe. E também porque não nasci pra ser amada sabe? Amada com amor maiúsculo. A tal da incondicionalidade que dizem que o amor verdadeiro encerra, seja ele sexuado ou não. Não pude ser amada assim nem pela minha família e nem por ninguém. Tem gente que nasce com essa sina. Sou uma destas. E sempre soube que era. Hoje finalmente aceitei meu destino. Só não me peça para ser feliz com ele. Não vou mais tentar, não vou mais insistir, não vou mais existir. Um dia vou morrer concretamente e o mundo vai seguir como se eu nem tivesse passado por ele. Não deixei filhos, não escrevi um livro, não plantei uma árvore. Fiz um blog, mas com o tempo, se eu deixar de escrever, o Google deleta. Nem do Google vou constar, já pensou nisso? Não constar do Google hoje em dia é não existir. Morrerei e terei uma lápide na qual vai estar escrito: “sinceramente não sei o que vim fazer aqui, mas vim, fiz o melhor que pude, e espero não ter de voltar nunca mais”.

- Seu soro acabou. Você está se sentindo bem para ir para casa? Ele pergunta enquanto gentilmente tira o esparadrapo que prende a agulha ao seu braço.

- Estou sim.

- Fica em pé e vamos ver se tem vertigens ainda, pede ele.

Ela se levanta e sabe que não terá mais vertigens, não entrou no núcleo. É o núcleo. É o nada. As vertigens eram apenas a passagem de um estado para o outro. Caminha até sua bolsa, a abre, pega o batom e passa nos lábios. Guarda-o novamente, fecha a bolsa e a coloca nas costas. Volta-se para o médico que termina de prescrever o calmante numa mesinha de apoio que tem ali. Ele estende a receita, que ela pega ao mesmo tempo que sorri para ele em agradecimento.

- Gostaria de revê-la semana que vem. Estarei de plantão na segunda e na quinta-feira, se puder vir na quinta seria bom.

- Não vou prometer vir não. Vou tentar. É a única coisa que posso prometer a mim mesma a partir de hoje: tentar, mesmo sem acreditar que vá conseguir.

- Se você ao menos conseguir tentar já me darei por satisfeito.

- Obrigada. Por tudo, obrigada.

E saiu da sala.

Ela era um nada indo rumo a nada.

Seus piores temores a haviam vencido.


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 7:53 PM - |


Sexta-feira, Junho 27, 2008

Realmente eu tenho paixão por escrever, mas ando muito distante disso ultimamente. Sinto falta dos textos mais literários, mas não sou muito fã de requentar textos no blog, mesmo sabendo que as pessoas que atualmente transitam por aqui não os conhecem provavelmente. Talvez seja hora de também repensar posturas por aqui...

Gosto de comentar sobre comportamento, porém tenho a escrita dura né? E acaba dando merda, pois as pessoas tomam pra si. Assim: muitas vezes uma pessoa próxima a mim tem um determinado comportamento e me faz pensar num texto, numa crítica que não necessariamente é dirigida à pessoa, mas sim ao comportamento, e no entanto, como não vestir a carapuça, não é mesmo? Então eu fico com o texto entalado até esquecer e isso não é bom... Vou ver como resolvo isso...

Mas tá, vou requentar alguns contos aqui no blog, vou ver se reescrevo Tambiquitu em algumas partes e termino os três capítulos que faltam do livro; vou falar de sentimento, vou falar de transformação e das coisas nas quais acredito. Vou comntar uns filmes, colocar músicas... Trazer meu bonitinho de volta á vida. Quem sabe assim os leitores voltam a aparecer né?


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 6:08 PM - |


Terça-feira, Junho 24, 2008



Musica de All Saints: Never Ever. Me senti assim uns tempos atrás....


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 9:43 PM - |




Pense num blog correndo alto risco de ser deletado...

Não tenho tido vontade de escrever e ninguémn tem tido vontade de lê-lo. Empate que jamais aconteceu antes...


Enviado por Marie Jeanne Sermoud 9:15 PM - |